Megalopolis*

por uma vida menos miserável

Ele vem saltando pelos montes…

Um dos livros bíblicos mais mal compreendidos de todos os tempos é, sem sombra de dúvida, o Cantares de Salomão, a.k.a. Cânticos dos Cânticos, livro poético do Antigo Testamento atribuído ao rei israelita Salomão. Apesar de sua linguagem explícita e direta, há quem invente mil interpretações sobre seu conteúdo, deixando completamente de lado o bom senso e a Navalha de Occam.

Para que você não tenha o trabalho de ir pegar uma bíblia, achar o referido livro e ler seus oito capítulos, vou resumi-lo em poucas palavras: Salomão e Sulamita, sua amada (supostamente uma entre as centenas de esposas que o rei de Israel teve) numa dirty talk. E é isso, nada além disso. Porém, ao longo dos séculos, muita polêmica já foi feita em torno dessas não tão sagradas palavras. A Igreja Católica cogitou a possibilidade de bani-lo da coleção bíblica, e ainda hoje algumas denominações cristãs mais rigorosas dão pouca, ou nenhuma importância ao mesmo.

Uma grande porção de crentes e estudiosos da bíblia acreditam que, na verdade, o Cantares de Salomão seja uma alegoria, uma ilustração parabólica do amor do deus Yahweh pelo povo de Israel, do amor de Jesus pela igreja, ou ainda do amor de Deus pelos crentes. Entretanto, não se encontra em lugar algum do livro qualquer indicação ou sugestão que sustente esta teoria. São poemas de amor erótico e só.

Para que não restem dúvidas sobre o teor dos poemas do herdeiro do Rei Davi, transcrevo aqui alguns trechos:

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!

A tua estatura é semelhante à palmeira; e os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas.

Dizia eu: subirei à palmeira, pegarei em seus ramos; e então os seus seios serão como os cachos na vide, e o cheiro da tua respiração como o das maçãs.

[Cantares de Salomão 7:6-8]

A linguagem cheia de floreios prejudica a interpretação e mais confunde que esclarece? Eu traduzo: “Tu é mó gostosa, hein? Vô pegá nos seus peitinhos!”

Ainda assim, há quem ainda tenha alguma dúvida sincera. Isso porque, como se sabe, a religião cristã tem sérios problemas quando o assunto é sexo, e se esquiva dele como o Diabo foge da cruz – ops. O tabu ainda é muito grande, e em pleno século XXI cristãos ainda imploram aos seus fiéis que fiquem longe da pornografia e se casem virgens; compreensível, afinal estão apenas sendo coerentes com seus dogmas. Por mais que Salomão diga com todas as letras que quer pegar nos peitos da Sulamita, cristãos coram, suam frio, respiram fundo e dizem: não, calma, isso aqui é a Bíblia, deve ter um propósito para Deus ter posto um texto assim aqui, isso deve ser linguagem figurada.

Interessante notar que até mesmo o pilantra, digo, pastor Silas Malafaia tem uma interpretação mais correta do conteúdo erótico do livro do que boa parte dos cristãos*.

Estando errada ou não, esse tipo de interpretação de que a descrição do ato sexual entre um homem e uma mulher seria uma parábola a respeito da relação entre a Divindade e o Fiel faz pensar. Richard Dawkins, na página 256 de seu ótimo “Deus, um delírio”, dá alguns exemplos de como o comportamento de um religioso se assemelha ao comportamento de uma pessoa acometida pela paixão sexual, incluindo aí toda a resposta fisiológica decorrente desse estado de excitação.

Tenho pra mim que toda a repressão sexual imposta pelo Cristianismo tem uma razão de ser, e essa razão não deve ser apenas uma coincidência de fatores, mas uma estratégia muito bem arquitetada. Fazer com que seus sacerdotes sejam castos, a meu ver, não foi apenas uma decisão econômica da Igreja Católica – uma vez que foi tomada devido aos excessos que seus clérigos cometiam, abusando de seus privilégios enquanto clérigos.

Restringir seus fiéis sexualmente a um número limitado de condições específicas para a prática, opções de gênero e até modalidades e posições foi uma jogada de mestre. Um dos mais fortes impulsos do ser humano, ligado à sobrevivência e perpetuação da espécie; uma característica que é tão marcante que de fato define vários aspectos da vida como a sexualidade é um poder muito grande para ser deixado assim, livre.

Usar esse potencial e transformar a massa em agentes úteis de seus propósitos é o objetivo de toda religião. Direcionar o alvo dessa paixão sexual para o intangível e transformar o sexo em algo impuro e mundano, incompatível com o Divino não me parece apenas um medinho, um puritanismo bobo. Foi algo orquestrado e muito bem calculado, perfeitamente de acordo com mentes megalomaníacas cujo objetivo é literalmente dominar o mundo.

*Vale ressaltar que Malafaia é da Assembléia de Deus, uma igreja pentecostal menos rígida que boa parte das denominações cristãs não-católicas, descendente direta da Igreja Batista. Os batistas, por sua vez, formam uma denominação protestante surgida da união de dissidentes da Igreja Anglicana que simpatizavam com os ideais menonitas, estes últimos sendo originários dos anabatistas – uma ala mais radical da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na Alemanha no século XVI.

Suicida Sans

Enquanto eu fazia propaganda da Hello Joana* no Twitter, a @Rekviem me sugeriu um projeto tipográfico. No início eu achei que fosse brincadeira, até que ela falou que gostaria realmente de uma fonte baseada num conceito assim, digamos, mais… pessimista. Que enfocasse o pessimismo auto-destrutivo, mas de maneira sutil, apesar do nome entregar de bandeja o conceito-chave.

Resolvi encarar o desafio e, alguns dias depois de a Hello Joana vir à público, comecei os primeiros rabiscos da Suicida Sans, mais exatamente no dia 3 de fevereiro, como se pode ver aqui. Me empolguei e, no dia seguinte, já tinha todo o alfabeto minúsculo pronto – ou seja, toda a base estrutural da fonte já estava pronta, bastava apenas desenhar toda a centena restante de caracteres…

Ao longo dos dias, fui trocando idéias com a @Rekviem sobre os desenhos dos caracteres e ela foi me ajudando a identificar erros ópticos, até que todos os carateres do set já estavam desenhados, importados no FontLab e prontos para serem kernados. Neste momento, a @Rekviem me perguntou quanto tempo levaria para terminar o trabalho e eu, lembrando das últimas vezes que tive que kernar uma fonte, disse “3 semanas”. Dois dias depois, eu já estava enviando a fonte pra ela.

O resultado você confere aí em baixo. Ou, também pode baixar o PDF specimen da fonte aqui.

Um trabalho que eu sinceramente adorei fazer. Permitiu-me aprender mais de tipografia tanto no sentido técnico (uso do FontLab e do Illustrator) quanto no sentido de composição visual/tipográfica (desenho dos glifos, contraste, arranjo formal, etc). E, claro, também adorei o resultado final: ficou foda, desculpe a minha falta de modéstia.

Gostou? Pois é, a fonte é exclusiva da @Rekviem e ela não quer dividir com ninguém. Egoísta, né? Fala com ela, quem sabe ela não te empresta?

*Hello Joana, em breve nos pesos Light e Bold.

“Você não entendeu, eu estava sendo irônica!”

Quatro horas da madrugada de 05 de fevereiro e lá estava eu twittando. Me vesti, fui tomar água na cozinha, molhei a cozinha inteira e, quando voltei, twittei o seguinte:

Uma gracinha boba de uma garota insone. Nem cinco minutos se passaram, apareceu gente pra corrigir, porque afinal líquidos se medem em litros e não em quilos, sua besta! Quem liga se 1 litro de água equivale a 1 quilograma, né mesmo, minha gente?

Fiquei puta, afinal era um tweet para ser apenas ignorado, principalmente em se tratando do horário, mas que provocou uma ligeira discussão na madrugada. Tenho pra mim que quem corrige coisas como essa é o mesmo tipo de chato que implica com typos bestas e corrige o já clássico “corrão” – enfim, gente que subestima a inteligência alheia, como se o erro proposital já não fosse óbvio o suficiente.

No meio da briga, enquanto eu discorria sobre a chatice de pessoas que corrigem essas besteiras e que se acham tão inteligentes por causa disso, meu oponente solta essa: “Eu estava sendo irônico”.

Novamente, para que a ênfase necessária seja empregada de forma efetiva na frase: Eu estava sendo irônico. EU. ESTAVA. SENDO. IRÔNICO.

Ele estava sendo irônico, gente! Né? Pronto, meu argumento era inválido, afinal de contas eu fui burra demais para não perceber que ele estava sendo irônico! Como assim? Estava tão na cara! Se você estava sendo irônico, parabéns, já provou a superioridade de sua inteligência em relação à minha. Se ele tivesse dito que estava sendo sarcástico, daria no mesmo, porque afinal é tudamemamerda. Eu sou mesmo uma idiota, malzaê.

A pessoa desmontou seu argumento? É só responder que estava sendo irônico/sarcástico. Ela é que não entendeu seu ponto, não compreendeu a genialidade de seu humor, não viu o quanto a sua idéia é superior à dela? Ser irônico/sarcástico equivale a dizer “ai como vosse eh burro naum meresse fala comingo nem intendi q eu falo”. In your face, bitch!

O fato é que a maioria das pessoas que usa essa expressão para tentar inverter sua situação em meio a uma discussão online geralmente nem sabe do que se trata, muito menos diferencia entre ironia e sarcasmo. Se você também não sabe, mas por sincera ignorância, vá lá na Wikipedia rapidinho sanar sua dúvida, eu espero.

Pra finalizar, toda a novelinha aí do texto foi só pra facilitar a sua vida nos flamebaits em que participa, nobre colega freqüentador das interwebs. Sim, porque eu que sou designer e sei mexer nas complicadas ferramentas de edição de imagem preparei para você uma seleção de figurinhas para colar nas suas discussões online e imediatamente vencê-las. Clique nos thumbnails para ampliar as imagens:


Sugestões de mais image macros salvadoras de discussões na internet? Use o formulário dos comentários aí embaixo.

Hello Joana

Esta bela fonte que você vê na imagem aí de cima é a Hello Joana. Acabou de sair do forno e não faz parte do conjunto de fontes sem compromisso que eu carinhosamente chamo de Bastardinhas.

Gostou? Ainda não a submeti a nenhum site de comercialização de fontes, mas se você quer adquiri-la logo, pode tratar diretamente comigo por email (fabianelim at gmail.com) ou pagar via Pay Pal, clicando no botão abaixo. Se escolher pagar em Reais, são 10 lulinhas; em dólares, 5 obamas.


Clique nesse botão aí em cima e ajude a fazer uma tipógrafa brasileira feliz!

UPDATE!

Agora também é possível comprar via Pag Seguro!

Meu mapa astral

O senhor Anderssauro está a postar em seu Twitter algumas pérolas obtidas através de uma guria com quem está de papo no MSN e que, provavelmente pela sua cara de profeta apócrifo (é ou não é?), pediu a ele que fizesse seu mapa astral. Mandei a ele um link de um fazedor automático de mapas astrais que vi na interwebs, e resolvi fazer meu próprio mapa astral, nesse site aqui, ó.

Uma das coisas interessantes sobre a astrologia é que ela usa descrições tão amplas e generalistas que se encaixam em qualquer perfil. Porém, no meu mapa astral, isso não deu muito certo. Pra começar, na descrição do meu signo (Câncer), ele diz que:

Os nativos deste signos são extremamente tímidos, instáveis, e de difícil acesso; sendo muito sensíveis escondem seus sentimentos, e se fecham em seus casulos quando se sentem ameaçados.

Instável uma vez por mês pode até ser, mas… tímida? De difícil acesso? Escondem seus sentimentos? OK, esse é só o começo, vamos continuar.

A Lua, que rege o signo, é a própria essência da figura materna, e mesmo se os nativos forem do sexo masculino, eles serão seguramente pais excelentes, isto é, extremamente maternais e ligados à família. [...] Procuram sempre um certo conforto e aconchego no lar, muitas vezes com moveis antigos, muitas fotos familiares e lembranças da infância para se sentirem seguros…

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Quem me conhece ou conhece meu blog há mais tempo sabe que eu não quero ter filhos, odeio crianças e acho que são uma total perda de tempo, uma vez que é preciso abrir mão da própria vida em prol dos filhos. Ligada à família? Quero que eles fiquem bem longe e não se intrometam, isso sim.

Minha infância/adolescência foi uma bosta, odeio antigüidade e só me sinto confortável em casa quando todo mundo sai, como acontece no presente momento.

Muitas vezes o seu karma está ligado à figura materna e à descendência feminina da família, e dificilmente se livram da mãe!

NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

[...] gostam muito de música [...]

Who doesn’t?

Sendo extremamente fechados e tímidos, podem ser suscetíveis ao meio ambiente e por isso detestam as novidades. Se sua sensibilidade for exagerada, podem parecer até lunáticos, caprichosos, e até um pouco efeminados.

Alguém dá um soco no imbecil que escreveu isso, pelo amor de deus? E eu sou mais macho que muito homem.

São maravilhosamente sensuais, românticos e delicados, dando muita atenção ao ambiente romântico de que ele necessita para expressar seus sentimentos.

Rá, meu namorado sabe o quanto eu sou delicada! E claro, claro, romântica, pétalas de rosa sobre a cama, alguma coisa do Kenny G tocando no som… E faço sexo de luz apagada, também. Sabe como é, pra poder expressar meus sentimentos sem me sentir constrangida. ¬¬

[...] ele aprecía lençóis macios e iluminação bem planejada.

Who doesn’t? [2]

Mais adiante, depois de descrever o signo mais boiola, patético e imbecil de todo o Zodíaco, o mapa começa a falar do meu ascendente, no caso, Libra. Segundo uma explicação do próprio site, ascendente é o signo que se encontra na linha do horizonte no momento exato do nascimento da pessoa. Ou se encontraria, uma vez que passados milhares de anos desde a invenção da astrologia, a órbita celeste já não é mais a mesma.

A sua necessidade de expressar o afeto o torna um ser sociável e amável com todos [...] O temperamento sanguíneo (próprio dos signos de Ar) [...]

Peraê, peraê! Meu filho, você não tinha dito lá atrás que meu signo era do tipo que tinha dificuldade em expressar sentimentos, que se fechava num casulo, e não sei mais o quê? E até onde eu sei, temperamento sangüíneo é aquele no qual a pessoa não tem papas na língua e fala o que lhe vem à cabeça; tu não tinha dito que isso era o exato oposto dos cancerianos? Se isso afeta o temperamento das pessoas sob o signo de Câncer, enão essa descrição abrange… TODO MUNDO!

Depois de falar do ascendente e das influências que ele tem sobre meu signo, o próximo passo é falar sobre o astro tal na casa tal, que faz alguma diferença em alguma coisa e rege minhas relações emocionais. Aqui, Lua em Aquário.

Você é um ser sociável, amável, adora os amigos e é muito popular.

Ô! Se juntar todo mundo que eu tenho no Orkut e no Facebook, dá uma pá de gente. Tudo bem que eu não vejo a fuça de ninguém há muito tempo, nunca vi pessoalmente alguns de meus melhores amigos, e saio de casa uma vez por ano, mas quem se importa? E também sou muito popular, basta ver meu número de seguidores no Twitter: Jesus só tinha 12, eu tenho 1791 e crescendo. Muito sociável eu, né?

[...] e tem aptidão para lidar com eletroeletrônica.

Claro, por isso eu fiz Design, e não um curso que preste na área de eletroeletrônica.

Para a mulher [...] pode indicar dificuldades para ter filhos e predisposição aos abortos espontâneos.

Ótimo, se a camisinha furar ou eu esquecer a pílula, é só contar com Lua em Aquário que vai dar tudo certo.

Se a Lua estiver ‘aflita’, você se tornará bastante excêntrica, rebelde, tendo opiniões sempre ‘do contra’, e se envolvendo em atos que reivindicam ações sociais, como aquelas ligadas a sindicatos, ONGs, e partidos de extrema esquerda.

O que é uma lua aflita? Não sei, mas ela deve estar sempre aflita então. Tirando a parte de sindicatos, ONGs e partidos de extrema esquerda, claro, porque isso é coisa de estudante da Federal.

As mudanças bruscas no humor também são uma das características do mau aspecto desta Lua, assim como as inúmeras mudanças de casa, de ocupação e até de país.

Tu não consegue ser coerente uma única vez, meu filho? Mimimi, cancerianos não gostam de mudanças, gostam de se fechar no seu mundinho, criar seu casulo, botar foto de família e recordações na casa e bla bla bla, mas basta a lua sair do lugar pra tudo ser completamente diferente?

Eu sei que astrologia já é uma imbecilidade em si mesma, e não é preciso muito para ridicularizá-la. Milhares de pessoas já fizeram isso antes, mas a capacidade que as pessoas têm de acreditar em porcarias desse tipo me deixa besta.

Para saber mais sobre astrologia (de um ponto de vista racional e inteligente): Pensamentos sobre Astrologia, do Cafetron.

10 coisas que aprendi com meu último emprego

1. Na verdade, a última impressão é a que fica. Você pode ter sido muito competente antes, mas se não for depois, não é da época de ouro que vão se lembrar.

2. As pessoas dão MUITO valor a um bom dia, por mais que você, anti-social, ache uma bobagem desnecessária.

3. Não importa muito o que você pensa a respeito de si próprio. O que conta mesmo é o que as pessoas acham e o que elas fazem a respeito disso.

4. Com exceção de alguns poucos, raros e nobres sentimentos, todo o resto tem seu preço. E custa caro.

5. Disciplina é um troço muito difícil de impor a si mesmo.

6. Se você passa muito tempo de sua vida tentando ser bom em algo, pode até não conseguir, mas saberá disso e não se enganará quanto à própria mediocridade.

7. Seu humor tem impacto direto no resultado de seu trabalho. E bom humor não necessariamente significa trabalho bem feito, e vice-versa.

8. A maioria das pessoas que estão no comando não participam do processo e só se focam em resultados, sem saber como o produto que vendem é feito e por que etapas ele passa.

9. Saiba reconhecer seus erros. Não fuja deles nem se faça de vítima.

10. As empresas em que todos sonham trabalhar são exceções, não a regra. Não se iluda.

Carta de Excomunhão

Curitiba, 19 de dezembro de 2009.

“A maioria das pessoas preferiria morrer a pensar; de fato, muitas o fazem.”
- Bertrand Russell -

Por meio desta carta gostaria de pedir o meu completo e absoluto afastamento das atividades da Igreja Batista no Bairro Novo Mundo. Peço também a exclusão de meu nome do rol de membros da mesma, e a minha excomunhão desta comunidade religiosa.

Os motivos que levaram-me a tomar esta decisão foram a completa descrença na doutrina e nos ensinamentos pregados por esta ou qualquer outra seita e/ou denominação cristã, e a compreensão de que conduzir minha vida nos preceitos da entidade sobrenatural outrora considerada senhor de minha vida prejudicava-me mais do que fazia-me bem. Uma vez que a fé não exige provas, e provas eram o que eu necessitava para crer na existência de um ser supremo, não fazia sentido permanecer na igreja somente para deixar felizes parentes, amigos e completos desconhecidos, em detrimento de minha própria felicidade.

Peço a compreensão dos antes irmãos em Cristo para com a minha decisão. Tenho a certeza de que, caso eu esteja errada e o Deus de sua crença seja mesmo real, Ele compreender-me-á e preferirá que eu tenha uma descrença honesta a uma falsa fé. Peço também que os irmãos examinem seus próprios corações e espíritos com a mente aberta e reflitam a respeito de suas crenças.

Além de sua compreensão, também gostaria que evitassem perder seu tempo (e o meu) tentando recuperar esta ovelha desgarrada, como alguns de vocês já tentaram. Caso desejem ter uma conversa franca a respeito, sem proselitismo de qualquer forma, estarei de braços abertos e à disposição para recebê-los.

Fabiane Alves de Lima

Meus preconceitos musicais

Todo mundo tem seus preconceitos musicais, eu também tenho os meus. Por conta desses meus preconceitos, eu desprezo uma pá de tipos de gente. Mas não me envergonho deles, ao contrário, boto aí pra todo mundo ver.

Desprezo pessoas que gostam de determinada banda/cantor, mas não assumem por medo do “preconceito” que possam sofrer por conta disso. Desprezo pessoas que não ouvem determinado tipo de música porque acham que vai influenciar em sua orientação sexual. Desprezo pessoas que não ouvem determinadas bandas com medo de prejudicar sua “coerência musical”.

Desprezo profundamente quem dá mais importância a classificar estilos de bandas do que às bandas em si. É impossível classificar em apenas um estilo bandas como U2 (rock, eletro, pós-punk?) ou Depeche Mode (synthpop, rock, new wave, euro?). Por mais que essas bandas tenham mudado ao longo dos anos, carregam influências. Não são puritanas e “fiéis” aos seus estilos de origem, e seriam extremamente monótonas se fossem. Classificar é divertido, e até útil e prático. Serve pra organizar os discos na prateleira, no player, cruzar referências, descobrir origens. O problema é quando os rótulos viram barreiras.

Desprezo pessoas que acham que os músicos têm de fazer música do jeito que elas querem. Eles têm é de fazer música do jeito que quiserem! Desprezo pessoas que acham que brasileiro, por ser brasileiro, tem a obrigação de gostar de música nacional. Desprezo pessoas que não gostam de determinados estilos musicais by default simplesmente por serem determinados estilos.

Desprezo profundamente quem se baseia em popularidade e não em sonoridade para classificar e ouvir música. Indie e Pop, por exemplo. Música indie é só é indie mesmo se for uma banda conhecida por meia dúzia de pessoas em algum país distante do Leste Europeu. Se a banda indie cai no gosto popular, é porque se venderam para as gravadoras, caiu a qualidade, não são mais os mesmos, o primeiro álbum gravado na garagem de casa numa fita K7 é que era bom.

Desprezo pessoas que acham que você tem que “entender” alguma coisa de música pra gostar de música. Você não trabalha nem sua vida depende de determinada coisa? Então você não tem obrigação de saber sobre ela. Desprezo pessoas que não sabem diferenciar seqüências musicais comuns de plágio, e não entendem que referências e ídolos todo mundo tem. Desprezo pessoas que acham que você, por ser jovem, não tem o direito de gostar de música que não é “do seu tempo” porque não entende o contexto. Desprezo pessoas que se vêem na obrigação de gostar de determinada coisa porque tem alguma importância histórica ou porque é “cool”.

Desprezo pessoas que dizem “Eu vivi época tal, você não sabe do que está falando”, quando na época tal essa pessoal era pivete ainda. Mas também desprezo pessoas que mesmo tendo vivido plenamente época tal, dizem “Eu vivi época tal, você não sabe do que está falando”. Desprezo quem diz “no meu tempo é que faziam música boa de verdade”. Aliás, desprezo qualquer um que diga “no meu tempo” a sério, torcendo o nariz pro hoje. No teu tempo é que era bom? Então se mata, ué! Velhos…

Desprezo pessoas que acham que você tem que ter algum “motivo” pra ouvir alguma coisa. Qual o problema de quem só ouve música pra dançar? Deixa eles, uai. Não incomodando ninguém, pode ouvir até Tecnobrega. Se fulano só quer dançar-dançar-dançar-pneus-de-carro-cantão, foda-se. Ouvir música não tem que ser um sacrifício, algo que se faz pelo bem de todos e felicidade geral da nação, com comprometimento e consciência.

Tem que ouvir o que se gosta. Torcem o nariz porque você gosta de sertanejo, funk carioca, tecnobrega ou música indu? Manda tomar no cu. Olhaí a sonoridade musical, rimou!

Te olham torto porque você não aprecia as letras de música em profundidade nem está preocupado em refletir sobre elas e seus significados ocultos? Manda tomar no cu.

Dizem que Fulana só quer se aparecer e que quem gosta das músicas dela não tem nada na cabeça, mas você gosta dela e por isso te enchem o saco? Manda tomar no cu.

Implicam com você porque você não curte uma banda consagrada que mudou a história do rock e que todo mundo gosta e acha que todo o resto da humanidade também tem que gostar, porque se não gostar não “entende” de música? Manda tomar no cu.

Você acha que TODO MUNDO gosta do tipo de música que você gosta e tem que ouvir o que você está ouvindo? Então agora eu é que te mando tomar no cu. Não desprezo quem gosta de forró, axé, emo e outros lixos. Mas desprezo quem gosta desses estilos e OUVE ALTO NO SOM DO CARRO! Maluco pode gostar de QUALQUER COISA desde que não me encha o saco.

Aí, me perguntam: “Por que tanto ódio no seu coraçãozinho?”. Eu respondo que não é ódio, é desprezo, e com ele vem a indiferença. E a indiferença é justamente mandar tomar no cu, ligar o foda-se e cagar solenemente, afinal passei da idade de ter que justificar minhas opiniões.

Não gostou? Tome no cu.

Inovar, comofas?

Todo ano sites divulgam por aí as trends de design. E os designers não se tocam que, na verdade, eles têm que FUGIR das tendências… De modo algum estou dizendo que as tendências de design têm resultados ruins. Longe disso. O problema é que tudo cai na mesmice.

Lembram quando a Apple começou com os designs estilo Aqua que, como dizia tio Jobs, “eram tão bonitos que davam vontade lamber”? Virou a marca registrada do estilinho web 2.0, os sites e até a mídia impressa, todos com a mesma cara, a mesma paleta de cores, os mesmos brilhinhos artificiais. Esse estilo apareceu por volta do início desta década, com o lançamento do Mac OS X. Hoje a Apple nem usa mais, mas tem gente que ainda apela pra ele.



Yummy!

O meio da década, em compensação, foi dominado pelos toy arts e ilustrações vetoriais fofinhas. E agora, o sketchy se juntou aos toy arts, e é trendy, é o novo Aqua.



Pra quê pensar? O brush do Illustrator faz pra mim!

Outra coisa que tá na moda também: letterpress. Faça QUALQUER COISA com efeitinho de letterpress e fará sucesso. Não sabe? Pois tome aí uma listinha de dez tutoriais com o maldito efeito letterpress que, já vou avisando, só fica legal em papel de verdade.



Chefe diz: Aprovado! Tá igualzinho o do concorrente!

Mas sabe o que me irrita mesmo no design hoje? Aquela montagens de Photoshop hipercoloridas e cheias de “swoosh” dos @abduzeedo da vida. E aquela imagens cafonésimas em HDR que todo mundo acha a última bolacha do pacote, como bem lembrou minha ex-colega de faculdade, @azedinho.

Se algum dia eu abrir o Photoshop e fizer uma coisa DESSAS, por favor me matem, eu cheguei no fundo do poço. Esse é o tipo de coisa que, por mais frustrada e mal paga que eu seja, jamais vou fazer na VIDA. Não me levem a mal, a maior parte do conteúdo do @abduzeedo é ótima, mas IMHO essas digital arts já deram tudo o que tinham que dar, estão pra lá de gastas.

Mas quem sou eu pra dizer? Tem uma ilustra estilinho toy art no meu site!

Eu também não sou grande coisa como designer. Tenho vergonha do meu DeviantArt, faz mais de um ano que estou enrolando pra fazer meu portfolio – e perdendo ótimas oportunidades de trabalho por causa disso -, porque sinceramente não sei o que botar nele. Só que eu tenho senso crítico. Talvez este mesmo senso crítico que esteja me atrapalhando a conseguir algo melhor, mas é justamente ele que me faz correr atrás de aperfeiçoamento. É ele quem me alerta que a coisa ainda não está legal.

O problema é que designer se forma, se descobre num mercado de trabalho maluco, acaba se prostituindo por salário de 3 dígitos e, descontente, faz qualquer coisa, topa qualquer parada. Tá uma merda, mas o cliente gostou? Ótimo, não preciso gastar minha massa encefálica tentando melhorar isso aqui, eu só quero bater o cartão e ir embora. Com a regulamentação da profissão, pisos salariais e outras regalias pode ser que a situação tende a melhorar e não sejamos mais registrados como “operadores de software gráfico”.

Achou exagerada a situação do parágrafo anterior? Pois é o que estou vivendo neste exato momento.

E aí você vira pra mim e diz: OK, Fabi, você venceu. Agora me diga, como vamos inovar? E eu respondo: Não sei! Eu não faço idéia, e se fizesse, com toda certeza NÃO te contaria, pois estaria muito ocupada ganhando dinheiro com minha idéia exclusiva.

Agora é eu quem pergunto: e tem como fazer algo diferente, inventar algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos foi pouco explorado? Vários twitteiros sugeriram passear, buscar referências, esfriar a cabeça e misturar novas e velhas idéias. Isso pode ajudar, mas nem sempre podemos dar aquela pausa e ir no sebo mais próximo olhar capas de discos dos anos 70 para incorporar algumas idéias em nossos layouts.

Na maior parte das vezes, estamos presos, acorrentados às nossas estações de trabalho, quem sabe até sem nem poder usar o Google Images devido a políticas hiper-restritivas de uso da internet por empresas retrógradas. Já sentiu isso na pele? Eu e alguns colegas já, e também ouvi outras histórias bem escabrosas.

Cobram-nos designs bonitos, criativos, inovadores, usáveis. No fim, a tal da criatividade e da inovação acabam sendo confundidos com um copão de café ao lado do monitor, porque só mesmo muita cafeína pra manter certos peões sob a alcunha de designers animados o suficiente para mover o mouse e criar um layout minimamente aceitável. Pobre de mim que sou imune a tão preciosa substância!

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P.S.: O desabafo descordenado acima é fruto de uma epifania que tive no Twitter esta manhã. Se você se sente como eu, quer partilhar experiências, ou até mesmo dar umas dicas de como sair dessa, por favor faça uso do campo de comentários abaixo.

P.S. 2: Cada um dos exemplos de efeitos gráficos usados no texto foi feito em cinco minutos (ou menos) no Illustrator por esta que vos escreve.

Limões, mulas e vestidos

O Raphael Corrêa (aka @Raph4) escreveu em seu blog um texto sobre a Geyse Arruda, a garota do vestido. Nele, ele não fala nada que não seja consenso ― que Geyse nem é tão bonita assim, que ela é burrinha, pobre, etc ―, mas fazendo uma espécie de manifesto do tipo “Por que estão idolatrando esta guria?”, ele acaba por esquecer do xis da questão.

E lá fui eu, no campo dos comentários, meter o bedelho na conversa. Porque campo de comentário de blog serve pra isso mesmo, apesar de muita gente por aí achar que é sinônimo de privada. Pelo Twitter vejo que, no momento em que escrevo isso, o Raphael foi pra aula e ainda não liberou meu comentário. Segue abaixo:

Acho que você escorregou um pouco e fugiu do assunto.

Acompanhe: Não importa muito se ela é uma isenta, burra, se não entende o mínimo de moda (porque, vamo combiná, aquele vestido é brega pra caralho), ou nem tão bonita assim. Essa é a imensa maioria do país, e eu concordo absolutamente com a última linha do último parágrafo do texto, só não zarpei dessa budega ainda por falta de dinheiro. Mas também tem que considerar relações de causa e efeito entre a tosquice do país e a qualidade da educação/cultura/etc. Nós, classe média, temos sim muito preconceito contra os burros e pobres, mas quando é hora de falar sério (e você se propôs a isso nesse texto), é hora de falar sério.

Enfim, o assunto não é esse – e foi justamente o enfoque que você deu, e na verdade nem emitiu opinião sobre o acontecido em si. O cerne do caso Geyse é justamente o motivo da humilhação pública. Pensa comigo: ela ser burra, ter nome feio, e não ser lá grande coisa em termos estéticos justificaria a atrocidade medieval cometida contra ela no pátio da universidade, por mais que ela tenha “provocado”? O fato de terem endeusado uma moça que não é grande coisa torna o caso dela menos horrível? E se ela fosse uma Megan Fox com doutorado em Mecânica Quântica, trabalhasse no CERN e aquele fosse o pátio da USP ou da UNICAMP, a balbúrdia seria “mais justa”?

É preciso ter cuidado ao simplificar um assunto sério porque não foi com a cara da guria (e este é MUITO sério, afinal retrata como anda a elite da elite brasileira – e se você tem curso superior, por pior que seja a instituição em que você estuda, FAZ SIM parte dessa nata). Eu acho ótimo toda essa super-exposição, leva as pessoas a pensarem que, apesar da democracia e dos direitos civis conquistados nos séculos posteriores, ainda vivemos numa sociedade preconceituosa, machista, patriarcal e muito longe de ser meritocrática – olhaí, tô parecendo o Alex Castro falando.

Eu sei que o assunto já está gasto, mas… e você, nobre leitor, o que pensa disso?